TÚNEL DO TEMPO: o autor do 1º gol da Seleção

TÚNEL DO TEMPO: o autor do 1º gol da Seleção

Antes de haver Pelé, Garrincha e Romário, Zico, Ronaldo e Vavá, Leônidas, Jairzinho e Neymar, antes de haver tantos e tantos craques responsáveis por formar o Brasil como pátria boleira, houve Oswaldo Gomes. O ponto inicial do ciclo que completa 100 anos nesta segunda-feira remete àquele jogador de expressão melancólica, olhar distante, cabelos escuros e ralos – o homem que fez, em 21 de julho de 1914, o primeiro gol da história da seleção brasileira. Aos 15 minutos de jogo, nas Laranjeiras, ele abriu a vitória de 2 a 0 sobre o Exeter City, clube da Inglaterra. Foi o maior feito, mas longe de ser o único, para um atleta moldado pela rivalidade, marcado por traições, vinganças, perdões, façanhas e dores.

É um mosaico de sentimentos que não deixa dúvidas: vivência não faltava àquele jogador no dia em que ele entrou de vez para a história. Oswaldo Gomes, então com 26 anos, era jogador do Fluminense, o dono da casa naquele jogo amigável – que acabou não sendo tão amigável assim – contra os visitantes europeus. Nos anos anteriores, se tornara figura conhecida no ambiente esportivo carioca. Vira nascer, ao redor de si, uma rivalidade que, a exemplo da Seleção, atravessou décadas com a força de quem viverá milênios.

Explica-se. Em 1911, três anos antes de o Brasil fazer seu primeiro jogo, Oswaldo era um dos mais importantes jogadores do Fluminense, clube soberano nas disputas regionais – campeão em 1906, 1907, 1908, 1909. Mas sofria contestação interna. Havia um grupo de atletas que acreditava na necessidade de mudanças na formação da equipe, especialmente depois da goleada de 6 a 1 para o Botafogo na decisão de 1910. A pressão era para que Oswaldo saísse. E algum outro jogador, em especial Borgerth, entrasse. Mas o comando tricolor não aceitava a intromissão. E aí o grupo se rebelou.

O motim teve nove atletas – Borgerth, Píndaro, Armando de Almeida (o Galo), Emmanuel Nery, Ernesto Amarante, Gustavo de Carvalho, Lawrence Andrews, Orlando Sampaio Mattos e Othon Baena de Figueiredo. Em uma pensão na rua Almeida, no quarto de Píndaro, a turma decidiu deixar o Fluminense. E escolheu outro clube da cidade para oferecer seus dotes futebolísticos: o Flamengo, então dedicado a esportes aquáticos. Foram acolhidos. Assim, do dia para a noite, Oswaldo viu nove ex-companheiros virarem rivais depois de não conseguirem sacá-lo do time.

Foi um golpe duro para aqueles que preferiram seguir no Fluminense. À dor do sentimento de traição, tiveram que aliar a dificuldade para formar um time, dado o tamanho da debandada. Atletas de outras modalidades esportivas foram convocados às pressas. E a equipe, aos poucos, foi se remontando. Até que chegou julho. Até que chegou o primeiro Fla-Flu.

Oswaldo, claro, foi a campo. Titular absoluto do Fluminense, ele viu, do outro lado, aqueles que antes eram seus parceiros de cores. A rivalidade, esse sentimento que costuma ser costurado ao longo dos anos, já era latente no primeiro encontro entre as duas equipes. Havia algo de defesa da honra em campo. Havia sentimento de revanche em um duelo que jamais existira.

O Flamengo era bastante favorito. Tinha tirado os melhores jogadores do Fluminense. Fizera 30 gols nos quatro jogos anteriores. Mas o Fluminense jogava em casa, era embalado pela vontade de provar aos rebeldes que eles haviam cometido um erro e tinha como aliada a imprevisibilidade dos clássicos – mesmo que fosse o primeiro deles. Diante de 800 pessoas, Oswaldo e os remanescentes do Flu venceram por 3 a 2.

Era a revanche. Era a vingança. Naquele momento, ninguém podia segurar Oswaldo. Ele atravessou o campo, aproximou-se dos jogadores adversários, aqueles que o haviam abandonado, e não pensou duas vezes antes de... oferecer uma taça de champagne a eles. O gesto, hoje impensável, apaziguou a relação entre os dois clubes, e o jogador do Fluminense se sentiu livre para seguir sua história. Que desembocaria em 21 de julho de 1914, naquele mesmo gramado, no jogo contra o Exeter, no primeiro gol da história da seleção brasileira.

Oswaldo e seu Fluminense não tiveram muito a comemorar nos anos imediatamente posteriores ao título de 1911. O clube só voltaria a ganhar o torneio estadual em 1917 – e aí repetiria a dose em 18 e 19. Mas surgiu o time nacional para animar a vida do atacante. Apesar do momento de baixa de sua equipe, ele foi chamado para representar o país.

E representar da melhor forma possível. Eram tempos em que o futebol não tinha uma vírgula da popularidade atual. Esportes como remo e turfe ganhavam muito mais espaço nos jornais. Os atletas jogavam no sentido literal do amadorismo – fazendo por amor. Por tudo isso, não era estranho que se esperasse uma vitória do time inglês contra a formação brasileira nas Laranjeiras.

O estádio ficou abarrotado. Cerca de 5 mil pessoas foram assistir ao evento. Mais do que a disputa esportiva, a atenção se voltava para a presença de estrangeiros na cidade. O livro “Seleção brasileira – 90 anos”, de Antonio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, relata que um português, dono de um bar, ofereceu suco de laranja aos jogadores ingleses com o objetivo de, assim que eles saíssem, vender as cadeiras onde eles se sentaram, como se fossem uma relíquia. E conseguiu, tamanha a curiosidade popular.

Os espectadores viram um momento histórico – e sequer sabiam disso. Mal começada a partida, a Seleção começou a dar sinais de que poderia encarar de frente os adversários – que vinham de vitórias por 3 a 0 sobre um selecionado de ingleses que moravam no Rio de Janeiro e de 5 a 3 sobre uma seleção carioca. Desde os primeiros instantes, os brasileiros se surpreenderam com o vigor dos oponentes, que chegavam com força incomum (para nossos padrões da época) em todas as jogadas. Aos 15 minutos, quando Oswaldo aproveitou cruzamento de Formiga e desvio de Abelardo para encaixar a bola no peito e chutar firme, fazendo 1 a 0, o público foi ao êxtase, conforme o relato abaixo, do jornal "Estado de S. Paulo" (mantido o texto da época):

- Decorridos 15 minutos de ataque cerrado, conseguiram os brasileiros, com um chute certeiro de Oswaldo, marcar habilmente o seu primeiro gol. O entusiasmo dos assistentes atingiu ao delírio. A massa de espectadores agitava chapéus e bengalas e, nas arquibancadas, as senhoras e senhoritas agitavam os lenços-.

A disputa ficou tensa após o gol. Friedenreich, maior nome da Seleção, chegou a perder dois dentes e saiu de campo sangrando. Rubens Salles levou uma pancada nas costelas. E, mesmo assim, o Brasil fez 2 a 0. E novamente com participação de Oswaldo. Ele recebeu de Friedenreich, passou por dois marcadores e acionou Osman, que ampliou o placar.

No segundo tempo, os ingleses ameaçaram abandonar o campo, mas Jimmy Rigby, capitão da equipe, ordenou que o jogo seguisse. E o Brasil iniciou sua história fazendo aquilo que mais repetiria ao longo dos anos: ganhando.

Oswaldo Gomes, porém, não teve vida longa na seleção brasileira. A vitória de 2 a 0 foi um dos cinco jogos que ele disputou representando o país em campo. Ainda em 1914, ele excursionou com a equipe nacional em terras argentinas, sendo novamente personagem do início de uma rivalidade histórica. Com ele em campo, em 20 de setembro, o Brasil levou 3 a 0 daquele que se tornaria seu maior adversário. Quatro dias depois, participou da vitória de 3 a 1 sobre o Columbia, um clube local.

No dia 27, Oswaldo experimentaria seu único título pelo Brasil. Em novo duelo com a Argentina, a Seleção venceu por 1 a 0, gol de Rubens Salles, e conquistou a Copa Roca. Depois desse jogo, o atleta do Fluminense só voltaria a defender o Brasil em 1917, em nova vitória – 2 a 1 sobre o Barracas, da Argentina, no Rio de Janeiro. Não foi titular. Entrou no decorrer da partida. E nunca mais jogou pela Seleção.

Mas a treinou. E presidiu. Foi o técnico do Brasil em 1920, quando começava a se despedir dos campos no Fluminense. Não foi bem. Viu sua equipe fracassar no Sul-Americano daquele ano, com vitória de 1 a 0 sobre o Chile e derrotas de 6 a 0 para o Uruguai e 2 a 0 para a Argentina. Logo deixou o cargo, mas no ano seguinte virou presidente da CBD, a Confederação Brasileira de Desportos. Em 1922, vingou a decepção de dois anos antes ao conduzir o Brasil ao título sul-americano – conquistado justamente nas Laranjeiras, onde ele marcara o histórico gol oito anos antes e onde vira surgir a rivalidade Fla-Flu.

Oswaldo Gomes ficou até 1921 no Fluminense, onde também praticou tênis e atletismo. É, até hoje, com suas oito conquistas, o atleta mais vezes campeão carioca. No tri consecutivo (1917, 1918, 1919), participou de todos os 53 jogos. No total, foi a campo 189 vezes pelo Fluminense. Marcou 42 gols. Hoje, na sala de troféus do clube, é reverenciado como um dos jogadores mais importantes da história tricolor.

O autor do primeiro gol da seleção brasileira morreu em 5 de julho de 1963. Viveu 75 anos – tempo suficiente para ver o Brasil ser duas vezes campeão mundial de futebol.
BRASIL 2 x 0 EXETER CITY
Data: 21 de julho de 1914.
Local: Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Árbitro: Harry Robinson.
Gols: Osvaldo Gomes e Osman.
BRASIL: Marcos de Mendonça (Fluminense), Píndaro (Flamengo) e Nery (Flamengo); Sylvio Lagreca (AA São Bento), Rubens Salles (Paulistano) e Rolando (Botafogo); Abelardo (Botafogo), Oswaldo Gomes (Fluminense), Friedenreich (Ypiranga), Osman (América) e Formiga (Ypiranga).
EXETER CITY: Reginald Loram; Jack Fort e Samuel Strettle; Jimmy Rigby, James Lagan e Augustus Hardin; Harold Holt, Fred Whittaker, William Hunter, William Lovett e Fred Goodwin.



Autor: agencia