Bruno destaca mapeamento de novos atletas pelo país

Bruno destaca mapeamento de novos atletas pelo país

Na base brasileira, a missão de encontrar os melhores jogadores é dificultada por um obstáculo natural: o tamanho do país e a população fazem com que a quantidade de atletas observados seja imensa, e a rotatividade nas seleções seja bem maior do que nos vizinhos. É o que explica Bruno Costa, observador técnico da CBF.

Ex-supervisor de seleções de base e ex-coordenador da base de Fluminense e Figueirense, Costa acompanhou o surgimento das últimas 20 gerações do futebol brasileiro. Em entrevista, ele fala um pouco da rotina, das especificidades da profissão e aponta as qualidades e o principal problema do jogador brasileiro. Confira o breve bate-papo:

Como é a rotina da função de observador técnico da CBF?
A gente dá todo o suporte aos treinadores, fazendo um mapeamento de atletas de várias categorias, temos uma base de dados, acompanhamos as competições nacionais, mantemos contato com os coordenadores de base dos clubes e vemos também as competições estaduais. Semanalmente, a gente passa aos técnicos informações sobre os atletas monitorados e convocados.
Qual a média de jogos que você observa por semana?

Depende. Geralmente acompanho seis, sete jogos por semana, isso quando não há competições nacionais. Quando há competições de dez ou 15 dias, acompanhamos em torno de 25, 30 jogos nesse período. Além do monitoramento que fazemos aleatoriamente. Em setembro, por exemplo, visitei 12 estados do Brasil, foram mais de 40 equipes e 600 atletas observados.
O que você prioriza na hora de avaliar jogadores?

A questão técnica acima de tudo. Um grande exemplo que eu dou é 2011 e 2012, quando as revelações do Campeonato Brasileiro foram Wellington Nem e Bernard, atletas baixos, mas de muita qualidade técnica. E podemos falar de outros, como Wellington Silva, Lucas e o próprio Neymar, que não tem um físico tão avantajado. E nas seleções de base temos hoje o Mauro Junior (meia de 15 anos do Desportivo Brasil), o Clebinho (lateral-direito de 16 anos do Flamengo), além do Auro, do São Paulo, que são jogadores baixos, mas técnicos.
Qual foi a melhor geração que você viu surgir na base brasileira?

Acompanho desde a geração 80. Estamos na geração 2000. A geração nascida em 1996 é muito forte, com atletas como Kennedy, Boschilia, Nathan, Abner. A /92, com Lucas, Neymar, Casemiro, Wellington Nem, entre outros, foi campeã mundial sub-20. A geração /88, de Anderson, Renato Augusto, Willian, Marcelo, foi vice-campeã mundial sub-17, era um time muito forte também.

A geração /88 era mais forte fisicamente do que a /92, por exemplo. É uma questão pontual ou alguns fatores, como a afirmação do Messi como melhor do mundo, ajudaram a mudar esse perfil de jogador?

Creio que é uma questão da geração mesmo, mais do que a mudança de perfil, do tipo de jogador que surge.

Em que o jogador brasileiro precisa evoluir, na sua opinião?

Em uma forma geral, na leitura de jogo, o cognitivo. O atleta precisa entender o porque dele estar dentro de campo, o discernimento de entender o jogo. O trabalho na base é muito bem feito, os profissionais da base são muito qualificados, mas com o ministério público em cima e os clubes pegando os jogadores aos 14 anos, complica um pouco (N.R: em vários estados, o MP não permite que clubes mantenham em suas divisões de base jogadores com idade inferior a 14 anos, alegando que se configura uma relação de trabalho entre clube e atleta. Para vários profissionais dos clubes brasileiros, esses atletas perdem uma fase importante do aprendizado como jogador, e não há como ser feita uma compensação depois).
E como estamos em relação aos outros países nesse sentido?

O futebol evoluiu muito, mas o jogador brasileiro nunca vai deixar de ser o principal jogador do mundo, 13% das transferências internacionais envolvem brasileiros. Mas eu viajo bastante, e vejo que o trabalho nos outros países cresceu muito. No ano passado, a Venezuela se classificou para o Mundial Sub-17. A gente vê hoje Chile, Colômbia e Equador com grandes seleções na base, e com um leque menor de atletas, o que dificulta o surgimento de talentos por um lado, mas facilita o entrosamento, a formação da equipe, pois os jogadores são sempre os mesmos. Não é mais como no passado, quando íamos ao Sul-Americano com a certeza da classificação.

Fonte: Blog Na Base da Bola - Globoesporte.com


Autor: Assessor de Imprensa: PAULO RICARDO