Em janeiro de 1983, morria a Alegria do Povo, o Anjo das Pernas Tortas

Em janeiro de 1983, morria a Alegria do Povo, o Anjo das Pernas Tortas

Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.
(Carlos Drummond de Andrade)

Não houve mesmo outro Garrincha, mas já bem antes daquele 20 de janeiro de 1983, o dia da sua morte. Atormentado pela doença do alcoolismo, longe dos gramados com que fazia as pessoas sonhar, vitimado por tragédias pessoais que o fizeram perder dois filhos em acidentes de carro, Garrincha já era há algum tempo uma sombra obscura do genial ponta-direita que assombrara o mundo com seus dribles improváveis.

Muitos companheiros tentaram ajudá-lo, como o compadre Nílton Santos, mas Garrincha vivia preso à sua doença. Um obstáculo que não conseguia superar, muito mais complicado do que deixá-lo para trás como fazia com sua arrancada espetacular com que também deixava os marcadores impotentes.

Vivia internado na clínica Ênio Serra, em Laranjeiras, na zona Sul do Rio de Janeiro, de onde saía para voltar logo em seguida. Naquele 20 de janeiro, ficou para sempre, morto aos 50 anos incompletos, com a vida destroçada.

Ainda de manhã, bem cedo, ao saber da notícia, um repórter que vivera o desafio e ao mesmo tempo a paixão de fazer incontáveis matérias sobre o ídolo maior está sozinho, caminhando em Ipanema, no Rio de Janeiro, sem ter com quem dividir a dor. Até que se encontra com Silva, um ex-jogador da Seleção Brasileira, companheiro de Garrincha na Copa de 1966, e lhe dá a notícia.
Sem se conhecer, ficam os dois ali, parados, como se não acreditassem naquele desfecho mais do que anunciado.
Garrincha estava morto.



Autor: Assessoria CBF